Quand j’ai découvert que tu regarde ailleurs.
Ce n’est pas sans étonnement qu’au milieu de cette discussion je t’ai entendu parler: “ma chère, tu te trompes!” Comme si chère était un nom affectif utilisé pour séduire, de la manière dont tu m’a expliqué d’autrefois, dans la voiture. “Je ne m’énerve pas, tu est méchante. Chère, je l’utilise pour séduire.” Ah, bon? Il ne m’en semble pas, ça ne m’a pas convaicue dans la voiture et ni quand t’as utilisé cette expression en public non plus, par la première fois avec moi dans cette discussion: “ma chère, tu te trompes!”, suffisamment perspicace pour savoir que, étant donné mon commentaire récent sur l’expression, cela définitivement m’aura blessé d’une manière profonde, comme une complicité qui se rompre quand quelqu’un trahit par la parole ce que l’autre a averti d’être sa crainte la plus grand. Être méprisée, être dédaignée avec un “ma chère”, suivi de ta surdité au téléphone quand j’ai essayé de te demander de l’aide et d’éclaircir des choses. Incapable de m’écouter, complètement indisponible, sourd, fermé. Aucun mot n’a pu faire que tu m’aurait écouté sans des ouïes déjà viciées, prêtes et sûres de ses réponses. Non pas l’ouverture à l’autre que j’ai toujours admiré, la curiosité et le respect avec lesquels tu cherchait toujours à se maintenir disponible, mais jusqu’un NON en caractères géants travesti d’entretien de sourds.
Pois não foi sem espanto que, em meio àquela discussão, te ouvir dizer: “querida, você está equivocada!” Como se querida fosse um nomeador afetivo, usado para seduzir, do modo como me explicou de outra feita, no carro. “Não é que me irrito, você está sendo maldosa. Querida eu uso para seduzir.” Ah, bon? Não parece, não me convenceu no carro e nem tampouco quando usou essa expressão em público, pela primeira vez comigo, naquela discussão: “querida, você está equivocada!”, perspicaz o suficiente para saber que, dado meu comentário recente sobre a expressão, ela definitivamente me magoaria fundo, como uma cumplicidade que acaba de se romper quando alguém trai na fala aquilo que o outro avisou ser seu maior temor. Ser desprezada, ser desdenhada com um “querida”, seguida de sua surdez ao telefone, quando tentei pedir ajuda e esclarecer as coisas. Incapaz de me ouvir, totalmente indisponível, surdo, fechado. Nenhuma palavra pôde fazer com que me escutasse sem ouvidos já viciados, prontos e certos de suas respostas. Não mais a abertura que sempre admirei para o outro, a curiosidade e o respeito com que sempre buscava se manter disponível, mas apenas um NÃO em letras garrafais travestido em conversa de surdos.
Et ce que t’a dit et redit, au-delà de “si tu veux le faire, fais-le!, n’était que: “si ça ne peut pas être de cette manière, ça n’en pourra pas être d’aucune, tandis qu’on ait les français qui font partie de ça.” Ah, les français! Les français, les français, les français… C’est incroyable que, en tenant tant dont se préoccuper en concernant un projet qui est le tien le plus que de quelqu’autre personne, que tu as construit et qui porte ta façon de voir, de réfléchir sur le monde, de travailler avec le savoir… c’est incroyable que, à ce moment là d’extrême tension concernant ce projet, ta préoccupation la plus grande soient les français. Pourquoi les français? Préoccupes-toi avec nous et avec ce qui se passe ici! Damnez-vous, les français! (Et remarques-toi que j’aime la France, les français, la langue et la culture françaises avec une nostalgie de ce que je n’ai jamais été et que j’ai toujours souhaité…)
Só o que disse e reiterou, além do “se você quer fazê-lo, faça!” foi: “se não puder ser desse modo, então não poderá ser de modo algum, pois temos os franceses que fazem parte disso.” Ah, os franceses! Os franceses, os franceses, os franceses… Incrível que, com tanto o que se preocupar em relação a um projeto que é seu mais do que de qualquer pessoa, que você construíu e que carrega seu modo de ver, de pensar o mundo, de trabalhar com o conhecimento… incrível que, em um momento de extrema tensão em relação a esse projeto, sua maior preocupação sejam os franceses. Por que os franceses? Preocupe-se conosco e com o que está acontecendo aqui, oras! Danem-se os franceses! (E olha que eu amo a França, os franceses, a cultura e a língua francesas com uma nostalgia daquilo que nunca fui e sempre almejei…)
Mais la réponse était si évidente dans cette scène que son impact n’a pas demeuré sans me frapper lourdement, douloureusement, en laissant un amer dans ma bouche à cause de la désillusion. Car ce que je n’avais pas remarqué jusqu’à ce moment là, dans cette admiration immense et reconnaissante que j’ai cultivé liée au bouleversant et confus amour que je sens pour toi, c’était que ta parole sourde et persévérante a dit le principal: ce qui importe, ce qui importe à toi, ce sont les français. Un projet fait ici. Pour les français. Un regard d’ici qui regarde là, à lointain, au-delà de l’Atlantique, aux français. C’est là que tu souhaite, c’est là que tu veux et, tout à coup, j’ai compris comment est-ce que tu te maintiens toujours si blasé parmi tant des gens importants, intéressants, intéressés, souhaitant d’être importantes à toi et de te séduire. Je croyais que c’était grace à ton savoir de l’absence d’importance de toutes cettes flatteries tandis que, dans la limite, on a seulement la certitude de notre délaissement et de notre mort imminente. Mais non, cette indifférence n’est pas celle de ceux pour lesquels la vie pèse comme une incarnation prèsque insoutenable mais, c’est triste, c’est l’indifférence de ce qui lance son regard toujours ailleurs, ambitionnant un autre lieu qui serait “le meilleur”. Ton indifférence est à cause de l’importance que tu donnes aux autres, à un autre lieu. Ce qui vaut pour toi est ailleurs. Ailleurs de moi, je le savais déjà, ailleurs de tout ce que je trouvait que tu donnerait d’importance.
Mas a resposta estava tão evidente nessa cena, que seu impacto não demorou a me atingir pesadamente, dolorosamente, deixando um amargo na minha boca de decepção. Pois o que não havia notado até então, nessa admiração imensa e agradecida que cultivei junto ao tumultuado e confuso amor que sinto por você, foi que essa sua fala surda e insistente disse o principal: o que importa, o que importa a você, são os franceses. Um projeto feito aqui. Para os franceses. Um olhar daqui que olha para lá, para longe, para além do Atlântico, para os franceses. É lá que você almeja, é lá que você quer e, de repente, entendi como é que você mantém-se sempre tão blasé em meio a tantas pessoas importantes, interessantes, interessadas, querendo te importar e te seduzir. Acreditava que seria por você saber da desimportância que toda essa bajulação tem, já que no limite temos apenas a certeza de nosso próprio desamparo e de nossa morte iminente. Mas não, essa indiferença não é a daqueles para quem a vida pesa em uma encarnação quase insustentável mas, triste, é aquela de quem lança o olhar sempre para outro lugar, cobiçando um outro lugar que seria “o melhor”. Sua indiferença é porque você se importa com outros, em outro lugar. O que vale para você está alhures. Alhures de mim, já o sabia, alhures de tudo com que achei que você se importasse.
J’ai compris l’entretien dans la voiture, l’invitation pour aller en France, y recommencer, laisser tout ce que tu as construit de manière géniale dans notre pays où tu es quelqu’un d’important pour y rentrer, pas anonymement, car c’est aussi impossible à toi donnée ta biographie, mais ayant que commencer presque du début. Laisser tout ce que t’as pour vivre et travailler en France. Où les véritables intellectuels habitent, où ceux lesquels tu as élu comme dotés de la valeur habitent, où sont les projets auxquels tu parais donner la plus grande valeur. Je peux comprendre, maintenant, que tu penses à le faire malgré tout ce que tu es et ce que tu as ici. Ce là que tu regardes, un lieu où je ne pourrai jamais être.
Entendi a conversa do carro, o convite para ir para a França, recomeçar tudo lá, largar tudo o que construíu de maneira primorosa nessa terra em que você é alguém para voltar para lá, não anônimo, o que é também impossível a você dada sua biografia, mas tendo que partir quase do zero. Largar tudo o que tem para viver e trabalhar na França. Onde estão os verdadeiros intelectuais, onde estão aqueles que você elegeu como os providos de valor, onde estão os projetos aos quais você parece atribuir o maior valor. Posso entender, agora, que você cogite fazê-lo apesar de tudo o que é e de tudo o que tem aqui. É para lá que você olha, um lugar no qual jamais poderei estar.
Black stormy eyes
I’ve just found out that Saramago – the writter – is married to a 20 year’s old younger woman and that fullfilled me with hope. I wished I had my own Saramago and I would have chosen him already, if only you would let me. But I know I’m not part of your horizon, which is so obvious and painful that it hurts and disturbs me each time I meet you.
Reflex and Descartes… what do I know about that? And who says I care? Nothing, nothing in this rainy Rio again. Why can’t I have that sun shining and beautiful calming views city for some days? I need Rio, with its ofensive beauty.
Descobri que José Saramago é casado com uma mulher 20 anos mais nova do que ele e me enchi de esperanças. Queria ter, eu também, meu Saramago e já o teria escolhido se você deixasse. Mas sei que não faço parte do seu horizonte, o que é tão óbvio que dói e se tumultua a cada encontro.
Movimento reflexo e Descartes… o que eu sei disso? E quem disse que me interessa? Nada, nada nesse Rio de Janeiro de chuvas novamente. Por que não posso ter aquela cidade de sol e belas vistas acalentadoras por alguns dias? Sinto necessidade do Rio, necessidade dessa beleza ofensiva.
Bite your fingernails, lick your lips, hold your head in your hand, in profile. Almost handsome, but has an impenetrable soul hidden behind tinny little black eyes, black eyes that never let anything escape. Sit aside leaning on the elbow rests of the chair. The watch appears when the jacket’s arm moves backwards. The watch on the wrist sets the limit between wrist and a hand smoothly gesticulating, little fingers not that small, hands almost beautiful.
Rói as unhas, lambe os lábios, apóia a cabeça na mão, de perfil. Chega a ser bonito, mas tem a alma insondável escondida pelos pequenos olhos pretos, pretos que nunca deixam escapar coisa alguma. Senta-se de lado apoiado no braço da cadeira. O relógio aparece quando o blazer recua. O relógio no pulso marca o limite entre pulso e mão que gesticula delicadamente, os dedos pequenos mas nem tanto, as mãos quase bonitas.
Eu dormiria neste instante se não encontrasse como entretenimento esse olhar escrutinador. Um sono pesado que pesa as pálpebras, amolece a expressão do rosto, tomba a cabeça do pescoço, quase levando-me embora, quase irresistível. Irresistível sono e irresistível mistério de não saber o que passa por sua cabeça. Será que eu passo por ela de algum modo quente, apetitoso, inquietante?
I would sleep in this exact moment if it wasn’t for the entertainment found in your inquiring eyes. A deep sleep that weighs my eyelids, softens my facial expression, overturns my head of my neck, almost taking me away, almost irresistible. Irresistible sleep and irresistible mistery of not knowing what crosses your mind. Is it possible that I cross it in a hot, desirable and troubling manner?
Decide to talk about insanity, Foucault and moral treatment, stretching out on the chair, smiling, having fun with your own thoughts, charming, a resolute speech, persuaded, as if right on this moment you would have waken up and incarnated on a professor giving lessons full of himself. Interested yourself in the act of thinking, interested yourself in your own self, in your magnificence, intereseted yourself in the argument. It’s a bodyless interest, one that can’t be devoured. Have you lost your body? When does it appear? How does it look like? Curiosity due to desire to be your appetite’s object, to be the object of that which escapes this distance and this indifference that I discovered ruining for a moment within a glance that glances face to face, a glance that penetrates and smiles while devouring. A glance that doesn’t turn aside, towards nothing, towards generalization. A glance full of intensity and turbulence. Black eyes storm?
Animou-se em falar sobre loucura, Foucault e o tratamento moral, esticando-se na cadeira, sorridente, divertindo-se com o pensamento, charmoso, a fala resoluta, convicta, como se agora tivesse acordado e encarnasse num professor que dá aulas cheio de si. Interessou-se pelo pensamento, interessou-se por si mesmo, por seu brilhantismo, interessou-se pelo argumento. É um interesse sem corpo, desses que não se pode devorar. Será que você perdeu seu corpo? Quando ele aparece? Como é? Curiosidade de querer ser objeto do seu apetite, objeto daquilo que escape a essa distância e a essa indiferença que flagrei ruir por um átimo num olhar que olha de face, um olhar que penetra e sorri enquanto devora. Olhar que não desvia para o lado, para o nada, para o generalizante. Olhar cheio de intensidade e tumulto. Tempestade de olhos negros?
Não é cálido como os olhos azuis ao lado, nem os olhos treinados de quem acostumou-se a ser olhado e a olhar sem distinguir, num olhar político. É o olhar que sorri, flagrei-o de novo, olhar de canto de olho, olhar que verifica. Sorri nos olhos e sorri e devora gentilmente, docemente, disfarçando a tempestade negra.
They ain’t serene as the blue eyes aside, not even trained eyes of whom is used to be stared at and to stare at without distinguishing, in a political glance. It’s the smiling glance, I discovered it again, a sideways glance, a verifying glance. Smile in the eyes and gently devour, sweetly, masking the black storm.
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